segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

9. Angústia.

Cheguei em casa e o acontecido cada vez ficava mais vivo em minha mente. Meus olhos estavam apenas molhados no momento, mas só foi me livrar dos parentes e enfiar minha cabeça no travesseiro que comecei a chorar. Entre lágrimas e soluços, veio-me um aperto no peito tão forte que coloquei a mão nele já com a certeza de que Deus havia ouvido minha promessa e fosse me levar. Isso não aconteceu, mas sim um vazio imenso que tomou conta de mim, um medo que me fazia tremer as pernas e as mãos, veio-me uma falta de vida.
Um sentimento de culpa chegou logo em seguida, eu sabia que tinha minha parcela de culpa no acidente, eu não deveria ter corrido, ter aceitado a proposta, não devia ter deixado a pressão de todos me levar a essa loucura consumada. Tudo isso que ocorre comigo é pelo simples, mas complexo fato de amar alguém. Não queria que Mônica se fosse e nem que ficasse machucada ou com alguma seqüela. Não queria Mônica longe de mim, eu precisava dela, ela que alimentava minha vida, tirava o desconforto do meu peito. Eu precisava de Mônica para protegê-la, fazê-la feliz. Longe dela eu me sentia mal, deprimido, morto.
Já começava a escurecer o dia, quando o que escureceu de vez foi minha visão, começou a embaçar e ficou tudo preto. Cai no chão. Um mundo novo começava a ter vida, mas não o real e sim o dos sonhos. Eu estava no local do acidente sozinho, tudo a volta estava quieto, estava cinza. Mas um carro vinha devagar para passar pelo cruzamento, e do outro lado vinham dois carros correndo. Sim, eram momentos antes do acidente. Os carros se chocaram, eu não pude fazer nada, mas dessa vez as conseqüências foram diferentes. Eu olhava para meu peito e estava sangrando, sangrava do lado esquerdo, no local do coração. Eu corria em direção ao carro de Mônica, mas ninguém estava dentro, me sentia confuso, me fazia perguntas. ”Cadê meu amor? Preciso salvá-la.” Mônica aparecia com um vestido branco atrás de mim e me abraçava. ”Esta tudo bem comigo, amor. Estou segura, estou salva já.” Eu virava para ela e via-a usando o anel que perdi na hora do acidente, quando eu ia abrir a boca para dizer algo, ela colocou seu dedo em meus lábios e disse. “Não se culpe de nada.”
Esse mundo se desmanchou quando o telefone tocou, o atendi. Era Sofia.
“Andréas, pelo amor de Deus onde você esta? A Mônica esta internada no hospital do centro. Ela sofreu um acidente de carro. Venha para cá já.”
Eu não sabia como Sofia tinha meu numero, se ao menos nem falava com ela, mas nada agora me surpreendia. Enxuguei minhas lágrimas que começaram a escorrer na hora do telefonema por saber que o sonho não era a verdade ainda. Desci as escadas correndo, eu precisava ver Mônica e ter notícias sobre seu pai e o companheiro piloto também. Abri a porta da frente, peguei minha bicicleta e rumei ao hospital. Mais coisas entram na minha cabeça, novas lágrimas corriam em meu rosto e novos problemas entravam em minha vida. Muita coisa para praticamente pouco mais de uma semana e muito mais para um dia só.

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