sexta-feira, 20 de novembro de 2009

5. O sangue não nega.

Eu não fazia idéia de qual seria a noticia que me aguardava. Já dentro do carro, Benito coçou seu cavanhaque e olhou para Toni como se estivesse perguntando algo. Eu, no banco de trás, disse: - O que aconteceu?-. Mus irmãos se olharam e fizeram um sim com a cabeça, Benito suspirou e disse: - Andréas, enquanto você estava la em cima com teus amigos, o celular do Toni tocou e não era noticia boa. Era Adriano, ele se meteu em alguma enrascada, não deu para saber ao certo o que era, porque a ligação estava péssima, mas deu para ouvir pelo menos o endereço que ele nos passou-. Adriano era um de meus primos que vieram da Itália, ele tem 16 anos. Eu sempre me dei bem com a família toda, inclusive com ele, por isso eu já conhecia alguns podres de Adriano. E um de seus podres era se meter com quem não devia e fazer burradas.
Benito girou a chave do carro e engatou a marcha, saímos. Senti-me culpado de não me despedir de ninguém na festa. Fomos até o local indicado em silêncio. Ao chegarmos nos deparamos com uma viatura de policia estacionada e com alguns rapazes algemados, e bem no meio estava Adriano. Todos estavam de preto. Um policial se aproximou de nós e nos perguntou; - Alguma dessas belezas pertence a vocês?-. Toni respondeu: - Infelizmente, seu guarda... Infelizmente. É o do meio-. O policial levantou Adriano e soltou as algemas e nos disse: - O que esse elemento fez não é de se deixar quieto, mas o dono do local resolveu não prestar queixa-. O policial ia explicar o ocorrido, quando interrompi pedindo desculpas e disse: - Deixe seu guarda, ele nos explica no caminho-. O guarda fez um sinal de concordância com a cabeça e entregou o primo delinqüente.
A razão de Adriano ter ido com nós é que meu irmão Benito já era maior de idade e podia ser responsável já.
Na volta para casa, Adriano nos contou tudo. Ele havia invadido um armazém para roubar umas bebidas, mas foi surpreendido pelos guardas. Isso era o sangue da máfia que corria na família, maldito sangue, que às vezes era bom e às vezes péssimo. Prometemos não contar nada para nossos pais, pois queríamos evitar confusão em casa.
Chegamos em casa, entramos pela porta do fundo para evitar muito barulho. Subimos as escadas e cada qual foi ao seu quarto. Joguei-me na cama e olhei no relógio, já eram quase 3 da manhã e nesse mesmo dia já haveria aula. Lembrei de Mônica, de sua beleza e já tinha me esquecido da revelação feita na festa, mas isso não tardou a aparecer. Comecei a pensar mil coisas de uma vez. Será que ela vai me olhar na cara? Será que ela ficou brava? Como será a aula daqui a pouco? Como vou reagir ao vê-la? E como ela vai reagir ao me ver?
Pensamentos e mais pensamentos me viam à cabeça, um desejo por ela chegou a mim. Eu estava morrendo de medo e vergonha. Esses jogos de verdades e desafios nos forçam a falar a verdade, não dá pra mentir ou omitir nada. Aos poucos adormeci e cai no sono pesado. Sonhei com Mônica, que estava maravilhosa e era só minha, mas um barulho interrompeu essa vida secundária, era o despertador que apitava “enlouquecidamente” indicando a hora de me arrumar e ir à escola. Ir à escola era o que eu fazia de segunda à sexta, mas dessa vez não era apenas ir à escola.

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